Bloguices da Marquesa

Uma aventura na casa do Senhor Marquês & 102 aventuras nas casas do Eng. Sócrates

Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Depura a Lina

Não sei se se viram as notícias, mas foi retirado do mercado um produto para as senhoras emagrecerem chamado "Depura a Lina".
Ao que consta, existem suspeitas de que esse produto tenha efeitos nefastos em termos da saúde de quem o utiliza. Contudo, ontem, após ver as notícias no canal oficial do Estado fiquei com grandes dúvidas se isso é mm verdade. Ao ser entrevistado em Abrantes, o cunhado da Lina (o marido da Guida), disse que a mulher ao tomar o produto, ficou com a traqueia comprimida, ficando também sem respiração e inspiração. Isso mesmo, sem respiração e inspiração. Vá lá que ao menos a expiração não foi afectada.
De qq maneira, se a pessoa não respira, não inspira, mas expira, é preciso ver que o Depura a Lina acaba ter como efeito um menor consumo do oxigénio existente na atmosfera, o que analisando bem e nos tempos que correm até não é mau.
E no entanto foi retirado do mercado......


(Burton C. Bell)

Sábado, 9 de Fevereiro de 2008

O Novo Ponta de Lança do Sporting


(Burton C. Bell)

Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Um Ano Disto



Pois é. Fizemos um ano. Always a pleasure. A banda sonora chama-se "Where Do You Go To My Lovely" e é cantada por Peter Sarstedt (1969).

(Zero)

Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

O Tlefonema


“Boa noite. Posso falar com o contratante deste tlefone?”
“Infelizmente, não.”
“O senhor é o contratante deste tlefone?”
“Infelizmente, não.”
“Mas o senhor tem tlefone?”
“Infelizmente, tenho.”
“E não quer ter tlefone?”
“Mas eu já tenho telefone.”
“Ah, então é o contratante deste tlefone?”
“Infelizmente, não.”
“Mas quer ser o contratante de algum tlefone?”
“Infelizmente, não.”
“Quando é que posso falar com o contratante deste tlefone?”
“Não sei.”
“Então nesse dia voltaremos a ligar.”

(Zero)

Sexta-feira Moderna

Piet Mondrian, Composition No. 10

(Zero)

Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

O Mito

A História de Portugal está repleta de episódios de poucos que fazem frente a muitos. Aljubarrota é um exemplo. O destino dos pequenos é engrandecer, com extrema heroicidade, os actos, mesmo que improváveis ou irrealizáveis. O tempo, a construção mítica ou a sucessão de gerações crentes encarregam-se do resto. Por exemplo, em 1537-1538, António da Silveira defendeu Diu, então cercada por 7,000 turcos sedentos de sangue cristão, com 40 valorosos portugueses de nobre cepa. Entre muralhas que cediam, defesas que soçobravam, munições que se esfumavam e mantimentos que se esgotavam, os 40 portugueses mostraram a 7,000 inimigos a grandeza do Império. Defenderam, com fé e sucesso, a praça-forte até à chegada de reforços (provavelmente, 15 homens de roupão e cachimbo). E, claro, o turco não venceu e viu-se obrigado a abandonar a contenda, remetendo os seus costumes bárbaros e o seu poderio bélico a outras terras, terras onde não existissem 40 valorosos guerreiros portugueses. Para os portugueses, o mito pode ser história, o mito vinca a cultura e mentalidade. No mito acredita-se. A História só atrapalha. Poucos portugueses, esfaimados portugueses, esgotados portugueses e cansados portugueses podem levar este País a grandes desígnios. Aliás, vê-se.

(Zero)

Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Grandes Momentos da TV Germânica



Isto pode parecer suspeito para quem vive entre o Príncipe Real e o Rato, mas gosto muito das músicas de Cole Porter. Cantadas pela voz de Ella Fitzgerald, então, no duplo CD "Ella Fitzgerald sings the Cole Porter Songbook", isso sim, dá-me anos de vida e uma paciência infinita para atender chamadas promocionais da TV Cabo. Mas há momentos na TV alemã que suplantam os nossos sonhos mais ousados.

(Zero)

O Problema dos Diminutivos


Irritam-me pessoas que usam casacos de cabedal e gravata e irritam-me pessoas que saem do metro e se quedam, imóveis, em frente à porta. Agora verdadeiramente insuportável é a paixão, quase generalizada nas mulheres, por diminutivos. As palavras, como dizia Nanni Moretti, são importantes. Temos que as tratar com humildade, consideração e respeito. Não me lembro da última palavra que reduzi a um diminutivo. Reduzir palavras a diminutivos é um acto “fofinho”, é um acto feminino. Os homens, ainda que alguns cedam à tentação dos diminutivos, preferem os aumentativos: o “carrão”, o “taradão”, o “porradão”, o “mulherão”, o “golão”, tudo revelador da melhor sofisticação. A verdade é que sou constantemente perseguido por adoradores de diminutivos: a minha mãe diz “filhinho”, as empregadas dizem “cafezinho”, as colegas dizem “faxzinho” e “dossierzinho” e “feriazinhas”; tento comprar um “blazer” e afinal trata-se de um “blazerzinho”, o bife é “bifinho”, o banho é “banhinho”, o copo é “copinho”, a rua é “ruinha”. Palavras que ninguém pensaria que fossem candidatas a uma impune reduçãozinha, são-no: “detergentezinho”, “lixíviazinha”, “iogurtezinho” ou “bifinho na pedrinha”. Ouço pessoas que se referem a outras pessoas ou a objectos inanimados como o “coisinho”. Hoje, no dentista, tive a sensação de que isto ainda agora começou. Mais diazinho menos diazinho, estamos todos lixadinhos. A recepcionista da clínica dentária, disse: “Sabe que lhe vamos fazer um Raio-xinho panorâmicozinho?”. Não, não sabia. Mas já desconfiava.

(Zero)

Zero - Esta é para ti






(Burton C. Bell)

Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

O Exemplo


Às vezes temos a sensação de que tudo o que fazemos - ou assim aspiramos - têm que ser perfeito. Não tem. Idealmente seria assim. Mas, no mundo real, não é. Nem conseguimos ser constantemente perfeitos nem o mundo o é. O mundo não está sequer à espera que o sejamos. E nós não devemos esperar que ele o seja. No caso do Sr. Polanski, não me lembro, entre "Chinatown" (1974) e "O Pianista" (2002), apesar da Nastassja Kinski, de ver um filme dele de que gostasse. Mas estes dois filmes são verdadeiras obras-primas. E se a vida tem algum sentido, o Sr. Polanski é disso um exemplo. Nem sempre se consegue criar uma obra-prima e por vezes luta-se toda uma vida em busca dessa criação. Mas, por vezes, consegue-se. Conseguindo-se, ou não, a suprema qualidade é não deixar de se lutar. É não nos deixarmos vencer pelos insucessos e pelo cansaço da tentativa. Ou viver à sombra do sucesso, do momento em que se conseguiu. É tentar, ir tentando e mesmo morrer a tentar. Depois, conseguindo-se, ou não, podemos morrer descansados.

(Zero)

Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

O Dilema Ético



A Shankara, na filosofia indiana, diz-nos que, onde quer que os valores possam ser contrastantes ou opostos enquanto primários e secundários, dever-se-á optar só pelo primário. Num exemplo, devemos preferir o “excelente” ao “meramente agradável”. A filosofia indiana é muito interessante e útil se não vivermos em Lisboa e não tivermos de ir a restaurantes lisboetas. A ética, a escolha sábia entre o bem e o mal, pode originar um interessante dilema nesta cidade. Existem dois restaurantes na mesma rua. Num deles, a comida é mediana e os empregados são muito simpáticos. No outro, a comida é óptima mas os empregados são antipáticos. Entre o valor primário “comida óptima” e o valor primário “muito simpáticos”, o que escolher? O que é certo e o que é errado? É certo dar o meu dinheiro a empregados antipáticos que servem comida óptima, desculpando-lhes, prolongando-lhes e justificando-lhes as razões para serem antipáticos? É errado dar o meu dinheiro e contentar-me com comida mediana apesar de os empregados serem muito simpáticos, desculpando-lhes, prolongando-lhes e justificando-lhes as razões para que os pratos sejam medianos? E, no confronto entre as duas hipóteses, qual é o meu valor primário preponderante, qual o valor primário a que obedeço e que dita a minha escolha no dilema ético? Prefiro a simpatia dos empregados ou prefiro a antipatia dos empregados? Prefiro a mediania da cozinha ou prefiro a genialidade da cozinha? Estabelecido o dilema, tenho perguntado a várias pessoas (26) o que responderiam. 21 pessoas escolhiam a “cozinha óptima” apesar dos empregados antipáticos. As restantes 5 pessoas não faziam concessões à simpatia dos empregados e votavam na “cozinha mediana”. O mais interessante é que somente dois homens estavam no primeiro grupo (o da cozinha óptima), votado maioritariamente por mulheres (19) e, por outro lado, no grupo “empregados simpáticos” só uma mulher alinhou com o voto maioritário dos homens (4). Na prática, 19 mulheres em 20 escolheram “comida óptima” e 4 homens em 6 escolheram “empregados simpáticos”. Perante estes resultados, o dilema ético seguinte é óbvio: o Vítor Sobral pode bater na mulher?


(Zero)

Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

Paulo Bento





Para mim, o mister Paulo Bento está lá bem e devia continuar por muitos mais anos


(Burton C. Bell)

O Sr. Marx

Documentário sobre a vida de um judeu que nunca poderia ter nascido em Belmonte. Obrigado ao Ressio.

(Zero)

Cartoons


Estes ainda não passam em Portugal



(Burton C. Bell)

Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

A Perda da Melancolia



O mundo está em risco? Quais alterações climáticas, Sr. Al Gore? Grave, grave é a perda da melancolia. O "zeitgeist" abomina a melancolia. Vivemos entre infelicidade mas queremos ser forçosamente felizes. E a imprensa internacional, o que diz? Na imprensa internacional pode ler-se isto.

(Zero)

Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

Canções que Mudam Algumas Vidas



Morrissey, "Everyday is Like Sunday" (1989)

(Zero)

O Não Sei se Tem Lido a Imprensa Internacional?


Para voltar a repisar as grandes questões que me atormentam, tenho a dizer que passei da minha vida calma e sossegada, quase irrisória e insignificante, para o extremo de adrenalina e de “suspense” diário, de uma vida agora vivida em pleno, no limiar da vertigem. Agora as pessoas têm opiniões. Eu pensava que só o meu pai é que tinha opiniões. Constatei, entretanto, que todos têm opiniões. Nas coisas mais simples, e que dispensariam, por isso, opiniões, as pessoas têm opiniões. As pessoas acham, entendem, parece-lhes, são da opinião que. Questões mais complexas, das que exigiriam um parecer escrito ou um estudo aprofundado, também induzem opiniões. Aliás, um estudo aprofundado ou um parecer escrito não são mais do que uma opinião. Vivemos numa sociedade opinativa. Uma sociedade que evita a manifestação, tida como um aglomerado raivoso, mas não perde uma oportunidade para se mini-manifestar e para opinar, principalmente se a “opinião” for concreta, resultar de um interrelacionamento social circunstancial e se os seus efeitos forem confinados no tempo e logo, por natureza, inconsequentes. Mas, se já me tinha habituado à universalidade da opinião, nas últimas semanas, uma frase alterou profundamente o hábito. De forma reiterada, e em qualquer assunto, da subida do preço do petróleo aos carrinhos da Chicco, tenho sido repetidamente confrontado com a frase “não sei se tem lido a imprensa internacional”. A pergunta tem-me sido colocada pelos mais variados quadrantes: no café, nas gasolineiras ou no trabalho pelo que pode ser considerada uma praga, não das que se abateram sobre o Egipto mas uma praga que se abateu e abate sobre Lisboa. Mas examinemos a frase. Em primeiro lugar temos o “não sei se tem lido”. O “não sei se tem lido”, com a forma interrogativa que os portugueses tanto prezam, carrega duas conotações. Carrega a dúvida e carrega a esperança. Quem faz a pergunta acha possível que possamos, porventura, não ter lido, mas ficaria, não totalmente surpreendido, mas enigmaticamente extático se o tivéssemos feito. Se lemos, e de forma louvável, fazemos parte do grupo dos eleitos, dos que estão preocupados, dos que não querem opinar sem terem lido primeiro; se não lemos, e também de forma louvável, a existência da conversa pressupõe que se tratou de uma mera casualidade. Estamos preocupados, queríamos ter lido mas não tivemos oportunidade. À partida nem sequer iríamos opinar sem ter lido. Não é grave. No fundo, estávamos à espera, antes de opinar, que alguém nos chamasse a atenção para a necessidade de ler. Em qualquer das respostas, a afirmativa ou negativa, não existe qualquer tipo de juízo sobranceiro. Até porque o inquisidor não coloca o interlocutor nesse vértice. O inquisidor já está suficientemente satisfeito consigo próprio por sabiamente ter lido, ter optado, com juízo, por ler, por ter, nos últimos tempos, vindo a ler. Basta-lhe que estejamos ali para que ele possa opinar depois de ter lido e do esforço que o ter lido representou. Quanto à “imprensa internacional”, a segunda parte da frase, essa carrega inevitavelmente um juízo de valor. Meiguinho, mas, ainda assim, um juízo de valor. É que, sobre uma questão concreta, não basta ler a imprensa nacional. De facto, e na maioria das “matérias”, nem vale a pena ler a imprensa nacional. É preciso ler a imprensa internacional. A nossa opinião não pode ser baseada na imprensa nacional e é por isso que não se pergunta “não sei se tem lido a imprensa nacional?”. Isso seria óbvio. E desnecessário de ler. O que é realmente importante é a leitura atenta da imprensa internacional. Uma opinião, a opinião, resulta disso. A pergunta pode parecer provinciana, por introduzir uma gradação de importância, mas o que é o provincianismo se for esse o preço a pagar por uma opinião mais “abalizada”? E isso, no fundo, é o que todos queremos. Ter opiniões “abalizadas”.

(Zero)

Beringela


Afinal, a Marquesa da Alorna teve uma.
(Burton C. Bell)

Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Página 91


"He knew everything about literature except how to enjoy it."


Joseph Heller, Catch-22


(Zero)

Sobre Arte Contemporânea


Na exposição, à entrada, a instalação de Rico Penck mostra claramente todo o peso da “angústia do outro”, em que, numa gaiola, duas lagartixas correm na roda do hamster de modo a que, pelo seu esforço, o hamster possa estar descansado a ler o jornal. Ao lado, Ree Fillicoou colocou dois pára-choques a jogar gamão, numa atitude codificada a seu bel-prazer. A dosagem catártica da instalação de Jupp Pistoletta, de significativa beleza plástica, mostra algumas sandálias espalhadas pelo museu, em sítios escolhidos pelo artista. Francesc Gordi, impondo um novo conceito de prática pictorial, atirou deliberadamente uma omeleta à cara de Hamisha Kdorv, o qual, tendo apreciado o plano de acção cénica ali demonstrado, resolveu ripostar, assumindo claramente a linguagem dialogante tão comum ao artista, pelo que adicionou letras e algarismos à matrícula do carro de Gordi. No piso superior, Chila Papist, em ritmo de contestação iconológica decidiu queimar as bulas de João Paulo II, causando alguns inconvenientes aos tratamentos. Num impulso totalitário, Sigmare Hacne, apresenta-nos, como instalação que subverte a forma, uma câmara que filma todas as nódoas da camisa de Joe Baldroegui, um artista representado igualmente neste piso, com uma instalação-surpresa, a qual, de facto, surpreende.

(escrito em 1998, em homenagem às críticas de Alexandre Melo no “Expresso”.)

(Zero)

Domingo, 20 de Janeiro de 2008

Cinema Americano do Século XXI


Não sendo propriamente um neófilo, no que diz respeito ao cinema, a verdade é que os anos 2000 e o cinema americano estão a fornecer um conjunto de filmes e de novos realizadores que prezo enormemente. Depois de "About Schmidt", Alexander Payne realizou "Sideways" em 2004. É um filme sobre vinho e amizade e relações amorosas e uma viagem pelas vinhas californianas. Podia ser passado no Douro vinhateiro mas seria, necessariamente, mais chato e pago com dinheiro do ICAM.

(Zero)

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

O Bigode à Benfica


Digno de Boticelli....
Alanis




Favoritas de sexta-feira à (muito) tarde (VII)


Alanis

Os Pronomes

(Para J., S. e C., as minhas viajantes.)

No trabalho, e normalmente no elevador, tenho encontrado um contínuo que me cumprimenta efusivamente. A porta do elevador fecha-se e ele abana a cabeça. Carrega nervosamente nos botões do elevador. O piso em que sai depende do destino a dar aos papéis. Tanto pode ter de carimbar um ofício no 1º, entregar um duplicado no 2º, recolher uma assinatura no 3º, pedir um original no 4º, entregar o original para arquivo no 5º, solicitar uma pasta no 6º ou visitar o arquivo morto no 7º. A sua manhã e a sua tarde dependem da visão “weberiana” que a minha organização possui sobre os aspectos funcionais do suporte em papel. Mal a porta do elevador se fecha, ele diz-me, ávido por um interlocutor: “Tenho mesmo que ir ver isto.” Nos primeiros dias, limitei-me a fazer um pequeno aceno simpático, uma expressão de serenidade face à gravidade do momento. Procurava, no fundo, transmitir-lhe confiança neste momento crucial da sua vida, no momento em que se prepara, com esforço pessoal, para lidar com “isto”. Ao fim de dois meses de contacto diário, a frase “tenho mesmo que ir ver isto” passou, da minha parte, a ter como resposta um “pois”, palavra que achei que representava melhor a amizade que nos unia. Se antes acenava a cabeça, afirmativamente, por um número de pisos indeterminado à partida, passei a estender vocalmente o “pois” de acordo com o mesmo percurso elevatório e aleatório, originando, claro, um “pois” menos prolongado se ele saísse dois pisos depois e um “pois” quase extenuante caso ele saísse sete pisos acima. A amizade foi crescendo, a passos lentos, e seis meses depois a frase “tenho mesmo que ir ver isto” já me fazia repetir, quase de forma catatónica, “pois, tem mesmo de ir ver isso”, havendo total concordância gramatical entre o meu “isso” e o “isto” dele. A minha simpatia e o meu reconhecimento das dificuldades implícitas naquele “isto”, sempre tão difícil de realizar, de compreender e de atingir, foram, com o tempo, ganhando a confiança daquele ser humano, igual a tantos outros, que entre papéis e pisos tem um “isto” que o atormenta. Hoje, logo pela manhã, ao meu repetitivo e compreensivo “tem mesmo que ir ver isso”, disse-me, piscando o olho em sinal de uma amizade agora cúmplice que, para ambos, resulta de uma atracção por pronomes: “Pois… Tenho mesmo que ir ver aquilo.” E, com esta cumplicidade renovada, despediu-se, saindo no piso em que a fotocopiadora ainda funciona.

(Zero)

O "Post" do Mr. Hyde



O lado do Mr. Hyde obrigou-me a fazer isto. Eis o vídeo banido dos Prodigy, "smack my bitch up".

(Zero)

E como hoje é 6af...

Um homem deslocava-se num balão de ar quente e, a dada altura, compreendeu que se encontrava perdido. Decidiu então reduzir a altitude.
Já próximo do solo avistou uma mulher e interpelou-a nestes termos:
- Peço desculpa por a importunar, mas será que podia ajudar-me? Estou perdido. Prometi a um amigo que me encontraria com ele há uma hora atrás, mas a verdade é que não sei onde estou.

A mulher em baixo respondeu-lhe:
- O senhor encontra-se num balão de ar quente que paira no ar a cerca de 8 metros acima do solo. A sua posição situa-se entre os 39 e os 40 graus de latitude Norte e entre os 8 e 9 graus de longitude Oeste.

- A senhora é de certeza uma funcionária pública - disse o balonista.

- De facto sou funcionária pública. Como é que adivinhou? - perguntou a mulher admirada.

- Bom - disse o balonista - tudo o que me disse é muito burocrático, formal e com um sentido obscuro. Até pode ser tecnicamente correcto, mas não resolve o meu problema. A verdade é que eu não sei o que fazer com a informação que me deu e continuo a não ter mínima ideia onde me encontro. Continuo perdido. Para ser franco, não me ajudou em nada. Se alguma coisa daqui resultou foi que a senhora só contribuiu para atrasar a minha viagem.

A mulher respondeu - O senhor deve ser um ministro.

- Sim, na verdade sou o Primeiro-Ministro - disse o balonista - mas como é que descobriu?

- Fácil - disse a mulher - o senhor não sabe onde está nem para onde vai. Atingiu a posição onde se encontra com uma grande dose de ar quente. Fez uma promessa e não tem a mínima ideia de como a vai cumprir. Espera e pretende que pessoas que estão abaixo de si resolvam o seu problema. A realidade é que o senhor está exactamente na mesma posição em que se achava antes de me encontrar, mas agora, vá-se lá saber porquê, isso é culpa minha?

Maggie

Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

Gostar de Futebol?


Sexta-feira passada, em conversa com S. e C. num bar de jazz “ambient” que tem cadeiras com três pernas, perguntaram-me se gostava de futebol. É uma pergunta desconfortável, para um homem, quando a questão é colocada por mulheres. Não sabemos o que havemos de dizer. Não sabemos o que esperam de nós. Esperam que sejamos o intelectual absorto? Esperam que sejamos o desportista nato, o adepto ferrenho? Esperam que sejamos o tipo que lê umas páginas de Tchekov enquanto assiste a um Benfica-Naval na Luz? O que certamente não esperam é que um tipo normal tenha a minha infância. Grande parte da minha infância foi passada no Estádio da Luz. Não tive a sorte de viver a gloriosa década de 60 de Guttman e os dois títulos de campeão europeu e as cinco finais perdidas, mas vi jogar o Chalana, o Nené, o Bento, o João Alves, o Humberto Coelho, o Carlos Manuel, o Pietra ou o Shéu. Vi jogar é capaz de ser uma imprecisão. Mais precisamente, grande parte da minha infância foi passada atrás da baliza dos adversários do Benfica. Filho de um não sócio que se orgulhava disso e sobrinho de um sócio cativo que se orgulhava disso, os anos 70 e uma parte dos anos 80, para mim, foram passados, no estádio, com o único sócio sem lugar cativo em quem a minha mãe confiava: o meu primo tontinho. O Armindo, o meu primo tontinho, adepto ferrenho, só tinha uma fixação: ver todos os jogos do Benfica atrás da baliza do adversário. Aos Domingos, de manhã cedo, apanhávamos o comboio e íamos para a Luz, com as nossas camisas da melhor flanela e as calças velhas que herdávamos do meu tio com lugar cativo. (Se fosse um jogo para as competições europeias, realizados às Quartas, também saímos no Domingo.) O Armindo julgava imprescindível a nossa presença no estádio oito horas antes do jogo. Em parte para garantir o nosso lugar atrás da baliza dada a procura daqueles lugares por tontinhos vindos dos cinco Continentes e em parte para rever os tontinhos que já não víamos exactamente desde o último jogo na Luz. Experimentávamos, atrás da baliza, uma sensação de “déjà vu” recorrente. Antes do jogo, discutíamos, de forma inflamada, a equipa que devia jogar, o que, normalmente, não reunia o consenso de todos os tontinhos. A equipa entrava, meia-hora antes do jogo, para o aquecimento e nunca coincidia com a equipa maioritariamente votada pelos tontinhos e pelas mulheres dos tontinhos, o que reforçava a minha confiança no treinador e no resultado positivo que se avizinhava. Sentávamo-nos na bancada, no cimento que gelava as nádegas e o Armindo abria elegantemente o seu magnífico assento de pele não genuína, até ali dobrado em dois e com as presilhas atadas. As minhas nádegas, sem essa sorte, chegavam ao fim do jogo como se me tivessem roubado as calças na Sibéria. Começava o jogo e durante noventa minutos éramos felizes. É certo que, dos nossos lugares, eu só via alguns lances de ataque do Benfica e, mesmo assim, via-os aos quadradinhos. Faltava-nos a perspectiva. O campo, na nossa maneira de ver, tinha vinte metros. Não tenho ideia, naqueles anos, de ver jogar o Humberto Coelho mas diziam-me que era um óptimo defesa central. Mas eram os metros suficientes para ver e insultar as mães dos defesas da equipa adversária. Via, isso sim, e aos quadradinhos, o avançado Nené, o homem que nunca sujava os calções brancos e que, por isso, era constantemente insultado pelos tontinhos e restantes sócios. Via, aos quadradinhos, grandes defesas do guarda-redes contrário e que, por isso, era constantemente apedrejado pelos tontinhos e restantes sócios. E, claro, quando o Benfica marcava um golo, a bola entrava e as redes balouçavam freneticamente e, por breves segundos e pelas leis da Física, os quadradinhos transformavam-se numa manta opaca e isso deturpava-nos a visão e não sabíamos quem era o responsável pela façanha. Só sabíamos que não podia ter sido o Nené porque os seus calções continuavam imaculadamente brancos. Mas abraçávamo-nos com mais força que os jogadores. Ao intervalo, naqueles quinze minutos que nunca mais terminam, o Armindo levava-me para a outra baliza. Fazíamos, a pé, meia Catedral, das redes de uma baliza às redes da outra baliza. O nosso mundo voltava ao equilíbrio. Atrás da baliza da equipa contrária, sempre, fizesse sol ou fizesse chuva ou fizesse nevoeiro ou fizesse trovoada. Mais uma vez estávamos no sítio certo. No sítio onde queríamos estar, rodeados de todos os tontinhos de quem gostávamos e que gostavam de nós. Documentei, ainda nos anos 70, todos aqueles anos atrás da baliza com a minha velha AGFA. A falta de verba familiar impediu a revelação, mas guardei, e guardo, os rolos de 12, 24 e 36 fotografias. E, não, não gosto de futebol. Gosto de ver o Benfica jogar. Chama-se masoquismo.

(Zero)

Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Burton C. Campainha e Alanis...

Os originais não fizeram o CEAGP...





Para adicionar videos do "you tube" no Blog basta copiar e colar o código da linha "embed". Não se esqueçam que as bloguices têm conta no You Tube.

Jinhos

Alanis

Todos os Dias Aqui Excepto Feriados


I can see That you and me Live our lives in the pouring rain And the raindrops beat out of time to our refrain And you and me Will win you'll see People die in their living rooms But they do not need this God almighty gloom There's something warm about the rain There's something warm There's something warm There's something warm in everything I know there's something good About you about you I know there's something warm There's something warm Good about you


Jesus & Mary Chain,"About You"
(Zero)

Folie à Deux


Florindo e Flora Beja estão na Rua da Escola Politécnica, à porta da Procuradoria-Geral da República, desde 18 de Março de 1996. Passo por eles todos os dias. Protestam há doze anos contra uma conspiração que os levou à miséria. Conhecem todas as Constituições, todos os Códigos, todos os “dossiers”, todas as leis e decretos-lei e sentam-se, absortos, nuns pequenos bancos articulados, indiferentes ao monóxido de carbono e aos transeuntes mais apressados. As suas reivindicações e os seus argumentos e o seu protesto, visíveis num gigantesco cartaz que levam e trazem da Graça, estão ali entre o nascer do Sol e as quatro da tarde, de Segunda a Sexta, excepto feriados. Os especialistas diagnosticaram-lhes uma “folie à deux”. Um delírio que toma como realidade uma maquinação, uma cabala, uma teoria aguda de conspiração. Florindo e Flora respondem, friamente, que ficarão ali até morrer, 24 horas por dia, a escrever milhares de requerimentos e ofícios. Ou ficarão ali até à resolução do processo. Florindo e Flora criaram o novo processo kafkiano. O processo que não resulta da acção aparentemente arbitrária da sociedade e dos princípios que a regem e que transtornam, em absoluto, a vida do indivíduo. Neste caso, e sem que a sociedade interfira, o indivíduo age como criador de um processo kafkiano que o envolve, que o arrasta, que o extenua, que o martiriza, que o persegue. Vive, com todo o romantismo e elegância e inquietude, à margem, compondo heroicamente o processo. A “folie à deux”, lamento dizer, agrada-me. Embora, no meu caso, seja mais o Dr. Jekyll e o Mr. Hyde.

(Zero)

Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

Encontrei-me na Tradução



"Lost in Translation", Sofia Coppola, 2003

Eu também não perderia o amor de uma vida. Antes cortar os pulsos com o pincel da barba.

(Zero)

O "Do It Yourself" Rosa


Algum dia teria de ser. Não tenho nada contra. As mulheres renderam-se à evidência. Anos e anos de micro-motricidade nas tarefas diárias e, finalmente, a obsessão correcta: fazer compras no AKI. Nós agradecemos. Mais detalhes, ler aqui.
(Zero)

Página 74


"Kraft was a skinny, harmless kid from Pennsylvania who wanted only to be liked, and was destined to be disappointed in even so humble and degrading an ambition. Instead of being liked, he was dead, a bleeding cinder on the barbarous pile whom nobody had heard in those last precious moments while the plane with one wing plummeted. He had lived innocuosly for a little while and then had gone down in flame over Ferrara on the seventh day, while God was resting (...)"


Joseph Heller, "Catch-22"


(Zero)

Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

O Meu Pai

Para o meu pai o culpado é óbvio. Ele sabe imediatamente de quem é a culpa do 11 de Setembro, dos ataques terroristas de Madrid ou de Londres, do tsunami, dos tremores de terra, das chatices em Nova Orleães, das alterações climáticas, da subida da EURIBOR e do custo de vida, do desemprego, da polémica do aeroporto, do rapto de Maddie ou dos desaires do Benfica. Existe, desde logo, apenas um culpado. Um único e exclusivo culpado. Quando me riscaram a pintura do carro, o meu pai disse: "Mas por que é que estiveste a fazer riscos no teu próprio carro?"


(Zero)

Millennium BCP - As Imagens


Aqui vão imagens exclusivas do protesto da administração demissionária deste banco

(Burton C. Bell)

Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Favoritas de sexta-feira à tarde (VI)


Alanis

BCC - A Bandeira


Tive a investigar e é mesmo verdade.
Aqui está a bandeira do Belas Clube Campo
(Burton C. Bell)

O Belas Clube de Campo

As pessoas costumam perguntar-me qual é a minha nacionalidade. Há pouco tempo, num bar em Bruxelas, o empregado tentou adivinhar a minha nacionalidade. Primeiro achou que eu era francês, depois decidiu-se pelo italiano; a seguir certamente que eu era inglês, espanhol, russo, holandês, belga, esloveno ou, de certeza absoluta, comunitário ou extra-comunitário. Nesse momento, e de forma pomposa, disse-lhe: “Não, meu amigo, a minha nacionalidade é o Belas Clube de Campo”. O Belas Clube de Campo é o meu condomínio. Não vivo na rua X ou na rua Y, não estou mais perto do Rato ou da Alameda, não vivo na margem sul ou na margem norte. Sobretudo, não vivo em Belas. Vivo no Belas Clube de Campo. Ali há polícia própria (a Securitas), há campo de golfe, há cavalos, há espaços verdes, há ordem, há aquecimento central, há centro de fitness (com sauna); temos moeda própria, bandeira própria e estamos a pensar em compor um hino. Diz-se que até temos um micro-clima, o micro-clima do Belas Clube de Campo. Um portão e uma cancela dividem-nos do país vizinho e, dentro das nossas fronteiras, há estacionamento abundante e todos os meus amigos e pais dos meus amigos têm uma vida igual à minha e à vida dos meus pais. O meu país, o Belas Clube de Campo, dá trabalho não qualificado a muita gente; chegam a vir trabalhadores miseráveis do estrangeiro distante em busca do Eldorado e que falam línguas que nada têm a ver connosco. Mas, nós, os cidadãos do Belas Clube de Campo, trabalhamos do outro lado da fronteira, em Portugal, em empregos socialmente correctos que nos permitem ser cidadãos do Belas Clube de Campo e de ter amigos com imensas afinidades. Porque não sejamos ingénuos. Todos querem viver no meu país. Todos querem ter o que eu tenho. Todos querem uma oportunidade de viver num país melhor. E entre Portugal e o Belas Clube de Campo, o segundo é muito melhor. E é por isso que, sempre que posso, digo Belas Clube de Campo. Sou um idiota mas não quero ser confundido com as pessoas pobres e com as que só têm dinheiro para viver em condomínios abertos.

(Zero)

Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Pollock e Sarapatel


Jackson Pollock (1912-1956) é como o sarapatel. Aprende-se a gostar.

(Zero)

Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Polpa de decadência londrina


Há músicas que nos trazem de volta a estados de espírito. Este album funciona para mim como uma máquina do tempo. Há cerca de 11 anos atrás vivi em Londres. A minha morada era uma residência de studantes no Centro onde residiam 500 autênticos animais de todas as partes do mundo. 6 meses não foram suficientes para conhecer todas as caras nem experimentar todas as trocas culturais possíveis.
Uma noite, chegada já não sei bem de onde com a residência já meio adormecida (havia sempre os eternos bêbados que continuavem a fazer a festa 24 horas por dia, 7 dias por semana), encontrei uma rapariga no elevador de nacionalidade que eu já não consigo precisar e que não me conhecia de lado nenhum que começou entusiasmadissima a falar comigo.
Do nada explicou-me que tinha vindo do concerto de Pulp na "Student Union". Ao que eu perguntei "Quem são os Pulp?", ao que ela respodeu que eram aquele grupo que tinha agredido o Michael Jackson nos MTV Awards. O concerto tinha sido tão bom, tão electrico tão envolvente que ela me pediu desculpa mas tinha que partilhar aquele momento com alguém, e como tinha ido ao concerto sozinha eu tinha sido a primeira pessoa que ela tinha apanhado. A conversa ficou por aí. No dia seguinte fui até Oxford Street e comprei este album nos saldos da Virgin. 11 anos depois estou aqui a agradecer à minha colega de residência várias horas de absoluto prazer e de viagens no espaço e no tempo. Este é um album que se ouve do princípio ao fim, sem fazer mais nada. Este é um album que se conhece as letras. Este é um album que vos leva a Londres, à sua decadência cheia de glamour e de volta à Terra. Este é um album que me trás lágrimas aos olhos e me dá vontade de rir ao memsmo tempo. Este não é um album intelectualmente estimulante e nunca teve pretensões a isso. É por isso que o aprecio.
Desculpem o desabafo, mas acabei agora de ouvir uma destas musicas e tinha mesmo de partilhar estas linhas com alguém.
Alanis

Dois Posts Chineses Num

Sex-Shop vs Chinese-Shop




Tenho reparado na abertura progressiva de várias sex-shops em Lisboa e no encerramento progressivo de várias chinese-shops em Lisboa. A questão é: não é possível conciliar a tendência e criar a primeira sex-shop chinesa? Agora vou fumar cachimbo com aquele olhar vago do David Mourão-Ferreira.

(Zero)


O Restaurante Chinês da "Time Out"


Encontrei duas tias chinesas de uma ex-amiga minha a jantar num restaurante chinês indicado pela "Time Out". Sei o que estão a pensar. Que a comida era óptima. Dim sum e barbatanas de tubarão como nunca antes vistos. Mas não. Nada disso. Certamente perderam muito dinheiro, na véspera, a jogar mahjong.
(Zero)

Disse Discreto, Cara Drª Watson?



Mel Brooks, "The History of the World Part 1" (letra parcial de It's good to be the king)

You can call me Louis
I'm the king of France
Check out my story
While you do your dance
Now it's seventeen hundred and eighty nine
The peasants were starving
But I was fine
We were hanging out
Down in old Versailles
That's the weekend pad of my queen and I
In the alleys of Paris
They was eating rats
But it was fillet mignon
For the aristocrats
There was Dukes and Counts and
Barons and Earls
I gave them the title
But I kept the girl
Blond, redhead, wild, brunette
Ladies in wait
I didn't wait to get
There was truffles for breakfast
Toast for brunch
The lion of the folley's version for lunch...

Ooh yes it's good to be the king
Ooh la la
Gee but it's good to be the king

Say it girls

You can be sure about one thing
Ooh la la
Mais oui, it's good to be the king

It's good to be the king

(Zero)

Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

Apostar nos Fernandos Alves Errados


Admito que sou um homem de esquerda e admito que vi o “Música no Coração” no cinema Condes. Admito que um dos filmes da minha vida provém do neo-realismo italiano (“Ladrões de Bicicleta”, Vittorio De Sica, 1948, imagem acima). Não gosto de injustiças, abomino assimetrias sociais. Entristece-me que, como acontece frequentemente, alguns (muitos) não tenham oportunidades num País que, para crescer e para se desenvolver, as devia dar a todos e aos melhores entre todos. Irritam-me os socialmente protegidos, a elite bacoca, o favorecimento e a impunidade, o dinheiro fácil, o beijinho, os jornalistas comprometidos, o atavismo e a ignorância das classes privilegiadas, a religião oficial que, ao Domingo, tudo perdoa. Mas também acredito na liberdade individual sem sujeições a um Estado paternalista que governe todos os meus passos, que legisle onde não lhe cabe legislar e que decida, sem lhe competir, o que eu devo ou não devo fazer. Mas, sendo de esquerda, se há coisa que realmente me irrita, são os homens de esquerda. Na universidade tive acesso a uma leitura Reader´s Digest dos clássicos, que não me entusiasmaram; não conheci, li ou vivi sob o jugo de Lenine, Estaline ou Mao ou de qualquer um dos líderes menores do antigo Bloco de Leste. Li, quando muito e por ser um iletrado, um livro de Gorki e três de Orwell (um óptimo escritor e que lutou contra Franco), um prefácio de um livro de Sartre (um existencialista chato para a existência dos outros). Nunca tentei comprar uma pasta de dentes em Havana nem conheço o teor dos longos discursos de Fidel Castro. Mas o que me incomoda verdadeiramente são os homens de esquerda portugueses.

Entre os comunistas, as sobrancelhas hirsutas de Álvaro Cunhal não me inspiravam qualquer sentimento benigno; Carlos Carvalhas, por seu turno, talvez pudesse ter feito carreira como comentador desportivo em Viseu e o actual Secretário-Geral, bom dançarino, é de facto um bom dançarino; entre os artistas, José Saramago, um escritor da casa e prémio Nobel da literatura, provoca um sentimento que se divide entre o gostarmos que ele fosse mudo ou o gostarmos que ele fosse analfabeto. Idealmente, as duas hipóteses. Os músicos PCP, do Carlos do Carmo ao Janita Salomé, retirariam (ou retiraram) a virgindade à Madre Teresa de Calcutá. A esquerda “moderna” transtorna, em progressão geométrica, o mais frio trapezista do circo Cardinalli. O sr. Francisco Louçã, o sr. Miguel Portas e o sr. Fernando Rosas, num mundo perfeito, viveriam e trabalhariam num kolkhoze em Porto Santo. Entre os homens de esquerda portugueses, salva-se, por razões óbvias, a Joana Amaral Dias e mesmo assim só depois de fotografada para um calendário de oficina.

Há, no entanto, um homem de esquerda que me irrita mais do que qualquer outro: o sr. Fernando Alves, jornalista da TSF. É de louvar o sadismo da estação em escolher as crónicas do sr. Fernando Alves para animar diariamente a hora de ponta (8h55 da manhã, programa “Sinais”). O Marquês de Sade sentir-se-ia orgulhoso com a TSF. Se dúvidas existissem, reproduz-se, abaixo, um pequeno e singelo texto (mas um verdadeiro compêndio de estilo) assinado por aquele excelentíssimo jornalista para o “Observatório do Algarve” em Março de 2006:

O "Observatório do Algarve" é uma das minhas janelas para um sul onde nunca perdemos o norte. Ao pousar aqui, com frequência, os olhos e os cotovelos, colho a maresia e as notícias de um Algarve que é muito mais do que sol e praia. Já me senti, espreitando a esta janela, levado de teleférico para o Nautilus, enquanto os olhos surfavam dubais. Aqui pressenti os motards de Ossónoba amarrando os cavalos junto à marina e aventurando-se Vila Adentro. Daqui vislumbrei Ibn Ammar descascando uma laranja nas margens do Arade. Daqui, como no poema de Sophia, lanço-me à conquista de Cacela pela beleza. Agora que é a data redonda e de festa, pedem-me os pés corridinho e os ossos um Arco do Repouso. Vai a ria formosa, ualg! Ergo, à nossa, a melhor aguardente de medronho que houver na serra.

O sr. Fernando Alves nasceu em Angola e descobriu, aos dezasseis anos, na Rádio Clube de Benguela, o “bichinho da rádio”. Quando já era um dos ícones culturais do éter daquele grande Continente, o sr. Fernando Alves, inocentemente desprendido de todas as vantagens materiais, abdicou de uma carreira fulgurante e promissora naquela rádio africana e cedeu às tentações do idealismo: experimentou a ainda incipiente rádio portuguesa; passou treze anos na RDP (curiosamente, uma rádio pública) e, chegado o momento de voar, integrou a TSF, rádio a que se mantém fiel até às 8h55 de hoje. Como, às 8h55, estou normalmente no banho, saio incólume do programa Sinais. Talvez me lembre, anualmente, do sr. Fernando Alves no Dia Mundial do Rim. Mas, e sei-o há vários anos, existe uma conspiração contra a minha saúde. A SIC Notícias, na noite de fim de ano decidiu retransmitir o celebrado documentário “Aqui há Pastores”, o que, por já ter tido pastores na família, me desinteressava totalmente. Porém, e à falta de melhor, sento-me no sofá, às 22h30, e ouço a voz cava e “off” do sr. Fernando Alves a ensombrar a história dos pastores da Serra da Estrela. Decidi imediatamente ir tomar banho. Não tenho nada de estritamente pessoal contra o sr. Fernando Alves; somente preferia que ele ficasse vinte anos encravado num elevador. Apenas me irrita a voz, a vaidade pedante, o pretensiosismo intelectual, a arrogância moral, a superioridade patológica, a permanente desilusão do mundo não se reger de acordo com os seus ideais inquestionáveis e bonitos, a linguagem ostensivamente poética recheada de pedras filosofais (o seu Gedeão, a sua Sophia, o seu Aquilino, o seu Eugénio de Andrade, o seu Torga); vamos pôr as coisas nestes termos: eu não queria viver num mundo que fosse governado, na terra ou no céu, pela terapia ocupacional do sr. Fernando Alves, grande homem de esquerda. Há muitos anos que a esquerda anda a apostar nos Fernandos Alves errados.
(Zero)

Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

O Bom Português Aqui Exilado

Gosto muito das fotografias de Daniel Blaufuks. Lembro-me da primeira vez que o descobri. Foi na Bertrand, algures nos anos 90. Um livro chamado "London Diaries". Não o comprei porque gostava 9.500$00 e eu, já na altura, era um Rockfeller sem um centavo no bolso. Se é possível que a Arte me arrepie, isso é possível com as fotografias de Daniel Blaufuks. Nada bate aquela sensação de entrar num museu qualquer, numa exposição qualquer e, sem estar à espera, levar um soco Blaufuks. Os portugueses costumam ser comedidos com o talento alheio. Vamos abrir aqui uma excepção. Daniel Blaufuks tem um talento que não cabe nestas pequenas fronteiras. É apenas um bom português aqui exilado.

(Zero)

A Pesquisa de Cabelos no Google Nacional

Fazer pesquisa em páginas nacionais retrata bem o nosso País. Em qualquer sociedade civilizada, um exército de milhões de espíritos empreendedores escreve na internet, utiliza scanners, tira fotografias, compõe páginas, efectua pesquisas e analisa fontes, publica dissertações sobre qualquer tema, faz o upload de imagens que ficam e ficarão na história da cultura universal. Em Portugal, assiste-se a uma pobreza que faria corar um franciscano. A falta de iniciativa individual, de labor diário e continuado, o desejo de lucro imediato, o monopólio do tempo presente e do compromisso actual, a pouca importância atribuída ao trabalho em prol dos demais, a cultura de pouca exigência com a obra futura e fecunda, torna muito difícil, com optimismo, ou impossível, com franqueza, arranjar uma boa fotografia do Fernando Dacosta. É necessário alterar este estado de coisas. Quero um Portugal onde a melhor fotografia do cabelo do Fernando Dacosta não seja esta (12k):


Quero um Portugal em que a pesquisa de imagens do Google nacional, forneça, a todos os portugueses, independentemente da sua etnia, religião, condição social, nível económico, escolaridade ou número de vezes em que chumbou o exame de admissão ao CEAGP, uma pesquisa rigorosa, completa, abastada e gigantesca no formato JPEG, GIF ou TIF dos melhores cabelos dos portugueses. Quero um Portugal em que o João Querido Manha não possua uns míseros 3 k:


Quero um Portugal que respeite os melhores cabelos e que lhes dê todos os megabytes a que têm direito. De que vale, ao João Querido Manha, ser o primeiro careca com cabelo extra-farto se só estiver disponível aos Domingos na TVI à 1 da manhã? Portugal só almoçará entre os grandes quando resolver este problema. Não é este o Portugal que quero para os filhos do prof. César das Neves.

(Zero)


O Cabelo do Governador



Nestes primeiros dias chuvosos de Janeiro de 2008, há uma questão essencial que tem abalado as minhas discussões: o cabelo do Governador do Banco de Portugal. Segundo a Wikipedia, o Governador nasceu em 1943. Tem, por isso, 64 anos (e a fotografia de cima foi tirada em 1988 mas podia ter sido tirada anteontem). No entanto, os cabelos do Governador são pretos; e pretos cor de graxa preta de sapatos e aparentam constituir aquilo que se pode designar por carapinha caucasiana. Como conclusão, o Vítor pinta o cabelo. Estabelecida esta premissa, e pressupondo que o acto do Governador obedece à legislação comunitária, o que me preocupa, grandemente, é o modus operandi envolvido. Não me interessa o princípio, não me interessa ajuizar se é ou não é aceitável que um indivíduo responsável, casado e banqueiro pinte o cabelo de preto aos 64 anos. Por exemplo, eis o retrato oficial do Vítor, da autoria de Luís Pinto Coelho:

O que me interessa, e transtorna, é saber como essa vacuidade influencia a vida do Governador. Repare-se no tom dado pelo artista ao cabelo. O Vítor anda livremente pela rua sem receio da chuva? Pode fazer campismo? Entrar num banho turco, é possível? Pode pentear e ajeitar os caracóis com as mãos e depois cumprimentar os outros Governadores? Pode ter um desumidificador em casa? Pinta somente os cabelos de preto ou o acto estende-se a todas as pilosidades que encontra? O velcro causa-lhe chatices? Pode deitar-se impunemente na cama desfrutando de lençóis e fronhas de linho branco? Quando acaba o toner nas impressoras, podemos utilizar a tinta do Vítor? O que faria o Vítor caso tivesse alopécia? Que tipo e grandiosidade de auto-estima é necessária a um Governador que sabe que pinta o cabelo e que sabe que todos os portugueses conhecem esta fraqueza? Ainda que constitua uma questão sensível, resolvi falar com duas amigas minhas sobre o assunto. J. realçou a possibilidade do Vítor usar uma touca de banho para o proteger da perda desnecessária de tinta. Disse-me também que, sendo o Vítor uma figura pública e um indivíduo muito exposto aos holofotes mediáticos, tem necessariamente que ter muito cuidado com a perda de tinta em sítios estratégicos (por exemplo, nos pêlos do ouvido e nariz). A2 disse-me que o Vítor tem que aparar muito bem o cabelo no pescoço para não sujar os colarinhos das camisas e que, se perder anualmente a cabeça com a mulher, é natural que ela acorde com uma tez guineense. Em conclusão, e por mais que nos tentem enganar, o problema de supervisão bancária dos negócios do BCP está relacionado com os cuidados e o tempo dispendido pelo Vítor com o seu próprio cabelo. Algo me diz que o próximo Governador vai ser um careca assumidíssimo. Cá estaremos para ver.

(Zero)

Em 72 era só uma Gaivota



André Kertesz, New York, 1972

Ou talvez um pombo. Em 2001, infelizmente, dois Boeing 767 deitaram abaixo o único edifício esteticamente interessante da década de 70.

(Zero)

Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Gauguin antes dos Simpsons



Paul Gauguin, "Le Christ Jaune" (1889)

(Zero)

Sábado, 5 de Janeiro de 2008

O Novo Deserto




Aqui à tempos, um conhecido ministro, afirmou que a Margem Sul é um deserto. Desde aí, toda a gente ficou a saber que os desertos não são apenas em África e que Portugal tb tem um. Até ontem! Sim, porque ontem todos ficámos a saber que existe um 2º deserto em Portugal. É o Deserto da Praça do Império em Belém, onde ontem foram avistados centenas de "camelos" que, ao que consta estavam em viagem para Dakar.


PS- Dizem que o Dakar foi adiado por motivos de segurança, mas a mim ninguém me tira da cabeça que o problema foi a incapacidade da organização em arranjar veículos alternativos para o co-piloto do Carlos Sousa, caso este ficasse mais uma vez sozinho nas dunas.


(Burton C. Bell)

A Questão Cueca

Surgiu um problema. Não tenho cuecas. Já dei volta a tudo. Não há. Tenho de ir ao Continente comprar cuecas. Quanto antes. Daqui a umas horas. Já. Mas não preciso de mais nada. Só de cuecas. O que é que se faz nestas circunstâncias? Compra-se leite ou sardinhas para tentar passar despercebido na caixa? Será isso suficiente num Sábado de manhã? Onde é que se podem comprar cuecas em Lisboa sem ser no Colombo? Há lojas só de cuecas para pessoas que não querem comprar leite e sardinhas só para passarem despercebidas? Por mais que tente relativizar a questão, não me sinto com a auto-estima suficiente para ser apanhado pela caixa do hipermercado com as cuecas na mão.

(Zero)

A Beleza do Cinema e do Amor é uma Coisa Séria



"Eternal Sunshine of the spotless mind", Michel Gondry (2004)

Change your heart
Look around you
Change your heart
It will astound you
I need your lovin'
Like the sunshine

Everybody's gotta learn sometime
Everybody's gotta learn sometime
Everybody's gotta learn sometime

Beck, "Everybody's gotta learn sometime"

(Zero)

Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Favoritas de Sexta-feira à tarde (V)


Bom FDS!
Alanis

O Seguinte Artigo Pode Conter Imagens Eventualmente Chocantes


A vantagem comparativa da Índia? A economia subterrânea do comércio de esqueletos. Os valentes podem lê-lo aqui. Os sensíveis podem divertir-se com a página oficial do Miguel Portas.

(Zero)

Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

BOA SORTE PESSOAL!!!!!!!!!

A auto denominada gerência das Bloguices deseja a todos os candidatos à 8ª Edição do CEAGP muita sorte no exame de amanhã!!!
Sem MEDOS!!!!


MINISTÉRIO DAS FINANÇAS
E DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
Instituto Nacional de Administração, I. P.
Aviso n.º 23321/2007
Alteração à lista provisória do concurso de admissão do curso
de Estudos Avançados em Gestão Pública
Por razões de ordem logística é alterada a data de realização da Prova
Escrita de Conhecimentos do CEAGP que irá realizar-se no dia 4 de
Janeiro de 2008, pelas 14.30H, nas instalações do Instituto Superior de
Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, sitas
em Lisboa, Rua G, Pólo Universitário do Alto da Ajuda.
No caso dos candidatos portadores de deficiência a Prova será realizada
nas instalações do INA — Palácio dos Marqueses — Oeiras, à
mesma hora.
22 de Novembro de 2007. — O Presidente do Júri, José António
Bagulho França Martins
Alanis

Ouvido na SIC (II)

O não-sei-quantos Paredes não voltou das férias de Natal e o Presidente da ASAE fumou um Marlboro na passagem de ano. De passagem fiquei a saber que o barril de petróleo atingiu os 100 dólars e que 50 pessoas foram queimadas vivas no Quénia ou na Nigéria (não deu para perceber, porque entretanto chagaram à conclusão que o Paulo Bento estava com falta de 4 jogadores por causa do acidente da automóvel que envolvem uma porrada de carros em Alverca...)
Acho que é tudo uma questão de perspectiva...

Alanis

Um Pouco de Pop Culture para o Trivial Pursuit



Blur, "She´s so High"

Eis a resposta para a pergunta "Qual o teledisco em que aparece uma referência ao livro "The Thin Man" de Dashiell Hammett?".

(Zero)

Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

A Prenda de Natal que Ninguém me Deu



A colecção completa do "Homem-Sombra" em DVD, FNAC, 60€; podia ser eu a fazer os melhores "dry martini" para o Nick Charles (William Powell) e para a Nora Charles (Myrna Loy) ao revisitar o estilo policial "hard-boiled" de Dashiell Hammett em "The Thin Man". Em Portugal, o livro está traduzido (faz parte da Colecção Vampiro) e encontra-se facilmente no Mercado da Ribeira. Esta colecção de DVD, infelizmente não. Calos nos pés da minha mãe, talvez.

(Zero)

Um Livro antes de Morrer



OK. Joseph Heller, "Catch 22", "paperback" por pouco mais de 10 dólares na Amazon. Um parágrafo por semana. Afinal, são só 464 páginas.

(Zero)

A Exposição


Tesouros do Museu Benaki, Atenas. Pode ver-se esta exposição temporária no Museu Gulbenkian (4 €, tudo incluído) até Domingo, 6. Também não se pode fumar lá dentro mas há muitas taças gregas que podiam servir de cinzeiro.

(Zero)