
Admito que sou um homem de esquerda e admito que vi o “Música no Coração” no cinema Condes. Admito que um dos filmes da minha vida provém do neo-realismo italiano (“Ladrões de Bicicleta”, Vittorio De Sica, 1948, imagem acima). Não gosto de injustiças, abomino assimetrias sociais. Entristece-me que, como acontece frequentemente, alguns (muitos) não tenham oportunidades num País que, para crescer e para se desenvolver, as devia dar a todos e aos melhores entre todos. Irritam-me os socialmente protegidos, a elite bacoca, o favorecimento e a impunidade, o dinheiro fácil, o beijinho, os jornalistas comprometidos, o atavismo e a ignorância das classes privilegiadas, a religião oficial que, ao Domingo, tudo perdoa. Mas também acredito na liberdade individual sem sujeições a um Estado paternalista que governe todos os meus passos, que legisle onde não lhe cabe legislar e que decida, sem lhe competir, o que eu devo ou não devo fazer. Mas, sendo de esquerda, se há coisa que realmente me irrita, são os homens de esquerda. Na universidade tive acesso a uma leitura Reader´s Digest dos clássicos, que não me entusiasmaram; não conheci, li ou vivi sob o jugo de Lenine, Estaline ou Mao ou de qualquer um dos líderes menores do antigo Bloco de Leste. Li, quando muito e por ser um iletrado, um livro de Gorki e três de Orwell (um óptimo escritor e que lutou contra Franco), um prefácio de um livro de Sartre (um existencialista chato para a existência dos outros). Nunca tentei comprar uma pasta de dentes em Havana nem conheço o teor dos longos discursos de Fidel Castro. Mas o que me incomoda verdadeiramente são os homens de esquerda portugueses.
Entre os comunistas, as sobrancelhas hirsutas de Álvaro Cunhal não me inspiravam qualquer sentimento benigno; Carlos Carvalhas, por seu turno, talvez pudesse ter feito carreira como comentador desportivo em Viseu e o actual Secretário-Geral, bom dançarino, é de facto um bom dançarino; entre os artistas, José Saramago, um escritor da casa e prémio Nobel da literatura, provoca um sentimento que se divide entre o gostarmos que ele fosse mudo ou o gostarmos que ele fosse analfabeto. Idealmente, as duas hipóteses. Os músicos PCP, do Carlos do Carmo ao Janita Salomé, retirariam (ou retiraram) a virgindade à Madre Teresa de Calcutá. A esquerda “moderna” transtorna, em progressão geométrica, o mais frio trapezista do circo Cardinalli. O sr. Francisco Louçã, o sr. Miguel Portas e o sr. Fernando Rosas, num mundo perfeito, viveriam e trabalhariam num kolkhoze em Porto Santo. Entre os homens de esquerda portugueses, salva-se, por razões óbvias, a Joana Amaral Dias e mesmo assim só depois de fotografada para um calendário de oficina.
Há, no entanto, um homem de esquerda que me irrita mais do que qualquer outro: o sr. Fernando Alves, jornalista da TSF. É de louvar o sadismo da estação em escolher as crónicas do sr. Fernando Alves para animar diariamente a hora de ponta (8h55 da manhã, programa “Sinais”). O Marquês de Sade sentir-se-ia orgulhoso com a TSF. Se dúvidas existissem, reproduz-se, abaixo, um pequeno e singelo texto (mas um verdadeiro compêndio de estilo) assinado por aquele excelentíssimo jornalista para o “Observatório do Algarve” em Março de 2006:
O "Observatório do Algarve" é uma das minhas janelas para um sul onde nunca perdemos o norte. Ao pousar aqui, com frequência, os olhos e os cotovelos, colho a maresia e as notícias de um Algarve que é muito mais do que sol e praia. Já me senti, espreitando a esta janela, levado de teleférico para o Nautilus, enquanto os olhos surfavam dubais. Aqui pressenti os motards de Ossónoba amarrando os cavalos junto à marina e aventurando-se Vila Adentro. Daqui vislumbrei Ibn Ammar descascando uma laranja nas margens do Arade. Daqui, como no poema de Sophia, lanço-me à conquista de Cacela pela beleza. Agora que é a data redonda e de festa, pedem-me os pés corridinho e os ossos um Arco do Repouso. Vai a ria formosa, ualg! Ergo, à nossa, a melhor aguardente de medronho que houver na serra.
O sr. Fernando Alves nasceu em Angola e descobriu, aos dezasseis anos, na Rádio Clube de Benguela, o “bichinho da rádio”. Quando já era um dos ícones culturais do éter daquele grande Continente, o sr. Fernando Alves, inocentemente desprendido de todas as vantagens materiais, abdicou de uma carreira fulgurante e promissora naquela rádio africana e cedeu às tentações do idealismo: experimentou a ainda incipiente rádio portuguesa; passou treze anos na RDP (curiosamente, uma rádio pública) e, chegado o momento de voar, integrou a TSF, rádio a que se mantém fiel até às 8h55 de hoje. Como, às 8h55, estou normalmente no banho, saio incólume do programa Sinais. Talvez me lembre, anualmente, do sr. Fernando Alves no Dia Mundial do Rim. Mas, e sei-o há vários anos, existe uma conspiração contra a minha saúde. A SIC Notícias, na noite de fim de ano decidiu retransmitir o celebrado documentário “Aqui há Pastores”, o que, por já ter tido pastores na família, me desinteressava totalmente. Porém, e à falta de melhor, sento-me no sofá, às 22h30, e ouço a voz cava e “off” do sr. Fernando Alves a ensombrar a história dos pastores da Serra da Estrela. Decidi imediatamente ir tomar banho. Não tenho nada de estritamente pessoal contra o sr. Fernando Alves; somente preferia que ele ficasse vinte anos encravado num elevador. Apenas me irrita a voz, a vaidade pedante, o pretensiosismo intelectual, a arrogância moral, a superioridade patológica, a permanente desilusão do mundo não se reger de acordo com os seus ideais inquestionáveis e bonitos, a linguagem ostensivamente poética recheada de pedras filosofais (o seu Gedeão, a sua Sophia, o seu Aquilino, o seu Eugénio de Andrade, o seu Torga); vamos pôr as coisas nestes termos: eu não queria viver num mundo que fosse governado, na terra ou no céu, pela terapia ocupacional do sr. Fernando Alves, grande homem de esquerda. Há muitos anos que a esquerda anda a apostar nos Fernandos Alves errados.
(Zero)